fbpx

Notícias

A Lisboa ribeirinha do pregão e da varina agora é só dos turistas

A Lisboa ribeirinha do pregão e da varina agora é só dos turistas

A Lisboa ribeirinha do pregão e da varina agora é só dos turistas

Nos bairros históricos de Lisboa, os residentes estão divididos entre o negócio que o turismo gera e a falta de habitação a preços acessíveis

Há dois anos que Natividade luta em tribunal para conseguir manter aberto o Mercado Estrela do Castelo, o único supermercado do bairro, mesmo ali, a 300 metros do Castelo de São Jorge. Tal como muitos moradores da freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa, também ela foi avisada que o edifício foi vendido e que o novo proprietário quer reabilitar o espaço para alojar turistas. “Disseram-me que tinha três meses para fechar o negócio, esvaziar a loja e sair. Querem montar aqui um hotel para o turismo, mas eu vou resistindo”. A luta tem permitido adiar o que no início parecia inevitável, mas com o tempo tem visto os vizinhos abandonarem as casas de uma vida – “e há tantas vazias que podiam ser usadas e estão ali fechadas, a cair…”

Não tem dúvidas: é preciso proteger os moradores e afastar os “olhos gordos” de quem vê no turismo a galinha dos ovos de ouro. “Não é o turismo, é este aproveitamento…Devia ser proibido porem pessoas de 80 anos na rua, com tantos edifícios vazios…é um crime”. Aponta o dedo aos políticos e lamenta já não ter do seu lado a frescura da juventude. “Eu moro aqui há 48 anos, nunca vi uma coisa assim. Agora, o meu trabalho serve para pagar as contas”. Apesar de tudo, Natividade não consegue repetir o que ouve os mais radicais dizerem. É que são os euros, os dólares e as libras que estão a gerar novo movimento e a aguentar os negócios. “No fundo, estamos a viver à custa deles, mas também estamos a ser comidos por eles”, resume apressadamente enquanto atende os dois clientes que tem na mercearia.

A poucos metros, na Rua dos Cegos, Sónia e Paula começam a preparar o dia que, por esta altura, promete ser agitado. Para já, o restaurante República Portuguesa tem apenas um casal estrangeiro na esplanada. “Aqui, 90% do negócio é gerado pelos estrangeiros, isto se não for 99%”, diz Paula. Sónia anui. “Tem um lado bom e um lado mau, o nosso ordenado hoje depende muito do turismo, mas para quem mora…”

É o seu caso. Há mais de 30 anos a viver no Castelo diz que hoje “já só aqui vivem 20 famílias, o resto é turistas”. São hostéis, alojamentos locais e guest houses, muitos a ocupar prédios inteiros, desocupando quem lá mora. “O meu prédio tem três andares, o 2.o andar já é para turistas, o prédio da frente também é só para turistas. O do lado igual”. O que aconteceu aos moradores? “As pessoas que lá viviam morreram, foram postas na rua ou não lhes renovam os contratos. Estão a esvaziar tudo para os turistas”.

“Também há muitos velhotes que voltam para as terras e aproveitam o dinheirinho que lhes dão”, acrescenta Paula. Não vive exatamente ali, a sua rua é “um pouco mais abaixo”. Por isso, também é mais resguardada, mas à sua volta as opiniões repetem-se. “Os vizinhos acham todos o mesmo, há zonas onde chega a ser uma invasão. Vêm para aqui para ver o que é típico, mas assim os bairros acabam”, lamenta. “Olhe, já ali à frente” – aponta – “o prédio do canto é todo para alojamentos locais, o edifício abaixo é um hostel, do outro lado da estrada aqueles dois edifícios também são só para turistas, veja são tantos ali nas varandas…”

A visão não deixa margem para dúvidas, enquanto o sol vai moendo os que começam a acender os fogareiros nos restaurantes, nos prédios os turistas aproveitam as pequenas varandas para estender as pernas e aproveitar o sol. Há famílias ainda a terminar os pequenos-almoços, muitas toalhas penduradas e quem esteja simplesmente de livro na mão. As ruas do Castelo também estão cheias. Sónia e Paula advertem: “Alfama está pior, Alfama morreu muito”.

Saiba mais em: www.dinheirovivo.pt

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *